domingo, 13 de junho de 2010

LENDO A BÍBLIA CORRETAMENTE



por J.I. Packer

A verdade é que muitos de nós têm perdido a capacidade de ler a Bíblia. Quando abrimos nossas Bíblias, nós o fazemos com uma atitude mental que levanta uma barreira insuperável à leitura correta da mesma. Isso parece ser um pouco alarmante, mas não é difícil mostrar que é verdade.

"Presumimos que estamos manejando as Escrituras Sagradas de maneira verdadeiramente religiosa; mas na verdade nosso uso delas é bastante supersticioso..."

Quando você toma qualquer outro livro, trata-o como uma unidade. Você procura o enredo ou a linha principal do argumento e o segue até o fim. Deixa que a mente do autor conduza a sua. Pouco importa se se permitir algumas olhadelas em várias partes antes de se dedicar à real leitura do livro, você sabe que não o terá entendido até que o tenha percorrido do início ao fim, e, se é um livro que você deseja entender, arranjará tempo para lê-lo inteiramente.

Mas, quando se trata das Escrituras Sagradas, nosso comportamento é diferente. Em primeiro lugar não estamos habituados a tratá-las como um livro, uma unidade, de modo algum, mas simplesmente como uma coleção de provérbios e histórias separadas. Nós supomos, antes de olhar para os textos, que o conteúdo deles (ou, pelo menos, dos que nos afetam) é uma advertência moral ou conforto para os que estão em tribulação.

Portanto os lemos (quando lemos) em pequenas doses, só alguns versículos de cada vez. Não atravessamos um livro todo, muito menos os dois Testamentos como um todo... O resultado é que nunca conseguimos ler a Bíblia. Presumimos que estamos manejando as Escrituras Sagradas de maneira verdadeiramente religiosa; mas na verdade nosso uso delas é bastante supersticioso...

Deus não quer que a leitura da Bíblia funcione simplesmente como um analgésico espiritual para mentes conturbadas. A leitura das Escrituras tem o propósito de despertar nossas mentes e não de fazê-las dormir. Deus nos pede que nos aproximemos das Escrituras como a Sua Palavra (uma mensagem endereçada a criaturas racionais, homens com inteligência) uma mensagem que não podemos esperar compreender sem meditar sobre ela...

"Também Deus pede que leiamos a Bíblia como um livro, como uma única história com um único tema."

Também Deus pede que leiamos a Bíblia como um livro, como uma única história com um único tema. Temos de lê-la como um todo e enquanto lemos precisamos perguntar a nós mesmos: Qual o enredo deste livro? Qual seu verdadeiro tema? Do que ele realmente trata? A menos que façamos essas perguntas, nunca alcançaremos o ponto do qual podemos ver o que ela está nos dizendo sobre nossas próprias vidas.

Quando chegarmos a esse ponto, descobriremos que a mensagem de Deus para nós é mais severa e ao mesmo tempo mais animadora do que qualquer coisa que a religiosidade humana poderia conceber.


Fonte: O Plano de Deus - J. I. Packer - Editora PES

EM QUE SENTIDO A DEPRAVAÇÃO É TOTAL?

por Phil Johnson

Todo membro da raça de Adão nasce totalmente depravado, caído, alienado de Deus, e em escravidão ao mal. Em Romanos 6, Paulo chama isso de escravidão ao pecado. Ele diz, além disso, em Romanos 6:20, que as pessoas que são escravas do pecado são totalmente destituídas da verdadeira retidão. Todos os que estão em tal estado de pecado e incredulidade são inimigos de Deus (Romanos 5:8,10). Eles são "estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas" (Colossenses 1:21)".

Totalmente.

A depravação humana é "total" da mesma forma que a morte é total. Você não pode estar parcialmente morto. Você pode estar muito, muito doente ou extremamente machucado e sendo mantido por aparelhos, mas você está ou morto, ou vivo. Não existem graus de morte.

De fato, quando a Bíblia descreve a depravação humana, normalmente utiliza a linguagem da morte espiritual.

Efésios 2, por exemplo, diz que as pessoas em seu estado decaído estão mortas em delitos e pecados – espiritualmente mortos (v. 1). Eles andam em mundanismo e desobediência (v. 2). Eles vivem segundo as inclinações da carne, enquanto "fazendo a vontade da carne e dos pensamentos" e são, "por natureza, filhos da ira, como também os demais" (v. 3). Eles estão "sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo" (v. 12).

"A depravação humana é "total" da mesma forma que a morte é total. Você não pode estar parcialmente morto."


Em Romanos 8:6, Paulo diz que "o pendor da carne dá para a morte". Ele está falando sobre a mentalidade carnal da incredulidade, descrevendo o que significa ser totalmente depravado. Ele segue adiante dizendo (v. 7-8): "O pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus."

Em outras palavras, a morte espiritual é uma total inabilidade de amar a Deus, uma total inabilidade em obedecê-lO, e uma absoluta incapacidade de agradá-lO.

Ora, muitos não-cristãos negarão que eles são hostis a Deus. Mas eles estão se auto-iludindo. Na verdade, muitos que invocam o nome de Cristo e reivindicam amar a Deus não amam, de fato, o Deus da Bíblia. Eles amam um deus que só existe na imaginação deles – um deus tolerante, profano, passivo, frágil e fraco. Esse não é o Deus da Bíblia. O Deus da Bíblia é santo demais para o gosto dos pecadores. Ele é irado demais contra pecado. Os Seus padrões são por demais elevados. As Suas leis não estão de acordo com a preferência deles. Portanto, apesar deles professarem amar a Deus, não amam o verdadeiro Deus que se revelou nas Escrituras. Eles não são capazes de amá-lO.

A incapacidade de amar a Deus como devemos é a própria essência da depravação total. Ela torna-nos impotentes para cumprir o primeiro e grande mandamento: "Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força" (Marcos 12:30)". Portanto, tudo o que o pecador faz é permeado pelo pecado, porque ele está vivendo a vida em violação constante do mandamento mais importante de todos.

Por outro lado, "depravação total" não significa que todos os pecadores sempre são tão ruins quanto podem ser. Não significa que todo incrédulo viverá a sua depravação integralmente. Não significa que todos os não-cristãos são moralmente iguais a animais irracionais ou serial killers. Não significa que pessoas de não-convertidas são incapazes de cometer atos de bondade ou benevolência para com outros seres humanos. Na verdade o próprio Jesus declarou que os incrédulos fazem bem às pessoas em troca do bem que é feito a eles próprios (Lucas 6:33).

A raça humana foi criada à imagem de Deus. Embora o pecado tenha corrompido aquela imagem, até mesmo não-cristãos são capazes de subir a altos níveis de bondade humana, honestidade, decência e excelência. Depravação "total" não significa que toda mulher não salva deve ser uma terrível bruxa, ou que todo homem não-crente é um psicopata degenerado. Significa que incrédulos, aqueles que estão na carne, não podem agradar a Deus.

"Assim a palavra "total" em "depravação total" refere-se à extensão da nossa pecaminosidade e não ao grau em que nós a manifestamos."

Assim a palavra "total" em "depravação total" refere-se à extensão da nossa pecaminosidade e não ao grau em que nós a manifestamos. Significa que o mal contaminou todos os aspectos do nosso ser – nossa vontade, nosso intelecto, nossas emoções, nossa consciência, nossa personalidade, e nossos desejos.

Usando terminologia bíblica, o pecado corrompeu totalmente o coração humano. Jeremias 17:9 diz, "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?" Se o coração é corrupto, toda a pessoa está contaminada.

Descrevendo nossa depravação como corrupção do coração, as Escrituras deixam claro que o real problema conosco encontra-se no centro do nosso ser. Nossa própria alma é infectada pelo pecado. Nada em nós permanece puro. Nossa tendência para pecar é inflexível e, no final das contas, inconquistável. O pecado, então, define quem nós somos.

Diante de um Deus perfeitamente santo e impecavelmente íntegro nós somos profanos, pecadores, completamente degenerados – não importando quão bons aparentemente sejamos em termos humanos. Ser verdadeiramente íntegros não é meramente difícil para nós; é impossível.

Isso é tão verdade sobre alguém como Mahatma Gandhi ou Madre Teresa como é sobre Adolph Hitler ou Jeffrey Dahmer*. A relativa bondade das melhores pessoas do mundo nunca é suficiente para merecer a aprovação de Deus. Seu único padrão é a perfeição absoluta. O melhor dos pecadores não chega nem perto.

Vejamos uma ilustração: suponhamos que todos os leitores de Pyromaniacs fossem enfileirados em Point Dume (a praia mais próxima da minha casa), e todos nós tentássemos nadar até Cingapura. A maioria de nós provavelmente se afogaria antes de atingir Catalina – que fica apenas a 42 quilômetros. Uma coisa é certa: Ninguém chegaria a Cingapura. Todos nós estaríamos mortos muito antes da meta ser atingida. Se eu fosse um jogador (e eu não sou) eu apostaria tudo o que tenho que ninguém chegaria até mesmo até o Havaí, que fica a menos da metade do caminho.

Uma pergunta: Será que aqueles que morreram antes de nadar duas milhas são piores do que aqueles que morreram a trinta e sete quilômetros da praia? É claro que não. Todos estariam igualmente mortos. A meta era tão desesperadora para o nadador especializado e ultra-treinado, como para o sujeito gordo que fez seu treinamento sentado em frente a um computador escrevendo em seu blog o dia inteiro.

"As pessoas estão preparadas para serem chamadas de pecadoras no seu pecado, mas elas não querem ser rotuladas de pecadoras na sua religião."

É assim que as coisas são com o pecado. Todos os pecadores estão condenados diante de Deus. Até mesmo os melhores da descendência de Adão são completamente pecadores no coração. Não importa quão bons eles possam parecer pela lente do julgamento humano, eles estão exatamente na mesma condição desesperadora do mais vil degenerado – talvez até em um estado pior, porque é mais difícil para eles reconhecerem o seu pecado. De forma que eles combinam o seu pecado com a auto-justificação.

As pessoas estão preparadas para serem chamadas de pecadoras no seu pecado, mas elas não querem ser rotuladas de pecadoras na sua religião. Mas isso é crucial: A religião humana não contradiz a depravação. Ela a confirma e prova. A religião humana coloca outros deuses no lugar legítimo do verdadeiro Deus. É a própria essência do ódio a Deus. É falsa adoração. Nada além de uma tentativa de depor o próprio Deus. É a pior expressão da depravação.

Lembrem-se: Foram os fariseus que Jesus condenou com a injúria mais severa que Ele jamais proferiu. Por quê? Afinal de contas, eles acreditavam que as Escrituras eram literalmente verdade. Eles tentavam obedecer rigidamente a lei. Eles não eram como os Saduceus, liberais religiosos que negavam o sobrenatural. Eles eram os fundamentalistas teológicos dos seus dias.

Entretanto, eles se recusaram a reconhecer a falência dos seus próprios corações. Eles confiaram em si mesmos de que eram íntegros e continuaram a tentar estabelecer a sua própria retidão, em vez de submeterem-se à retidão de Deus (Romanos 10:3). Lembram-se do que eles disseram ao cego de nascença em João 9:34? "Tu és nascido todo em pecado" - como se eles não fossem.

Em outras palavras, eles rejeitaram a doutrina da depravação total, e isso conduziu à sua absoluta condenação. Jesus disse: "Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores" (Marcos 2:17). "Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido" (Lucas 19:10).

Eles pensavam que todas as suas boas obras os tornavam justos. Mas religião e boas obras não cancelam a depravação. A depravação corrompe até as formas mais elevadas de religião e boas obras. George Whitefield disse que Deus poderia nos condenar pela melhor oração que nós pudéssemos fazer. John Bunyan concordou. Ele disse que achava que a melhor oração que ele já tivesse feito tinha pecado suficiente nela para condenar o mundo inteiro. Isaías escreveu: "Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam" (Isaías 64:6).

Pecadores não remidos são, portanto, incapazes de fazer qualquer coisa que agrade a Deus. Eles não podem amar o Deus que se revela nas Escrituras. Eles não podem obedecer à lei de coração, com uma motivação pura. Eles não podem sequer compreender a essência da verdade espiritual. Primeira Coríntios 2:14 diz: "O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente". Incrédulos são, portanto, incapazes de ter fé. E "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hebreus 11:6).

Notem: A palavra chave em tudo isso é incapacidade. Pecadores são totalmente incapazes de responder a Deus, à parte da Sua graça capacitadora.

Este é o ponto de partida para um entendimento saudável e bíblico da soteriologia.

Créditos: http://www.bomcaminho.com/pj006.htm

NENHUMA GLÓRIA PARA VOCÊ



Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome - Salmos 29.2

A glória de Deus é o resultado de sua natureza e de suas realizações. Ele é glorioso em seu caráter, porque existe nEle um estoque inesgotável de tudo o que é santo, puro, bom e amável. As realizações que fluem do seu caráter também são gloriosas. Deus tenciona que estas realizações manifestem às suas criaturas a sua bondade, a sua misericórdia e a sua justiça. Deus também está interessado em que a glória associada a tais realizações seja atribuída apenas a Ele.

Em nós mesmos, não existe nada do que podemos nos gloriar pois, quem nos faz diferentes de outros? O que temos que não tenhamos recebido do Deus de toda graça? Portanto, quão cuidadosos devemos ser em andar humildemente diante do Senhor! Visto que no universo há lugar somente para uma glória, no momento em que glorificamos a nós mesmos, nos colocamos em rivalidade para com o Altíssimo! O inseto que só existe há uma hora se glorificará diante do sol, que o esquentou para que nascesse? Se exaltará o vaso de barro, acima do que o moldou sobre a roda? A poeira do deserto contenderá com o redemoinho? As gotas do oceano lutarão contra a tempestade?

Todos os retos, "tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome". Talvez, uma das mais difíceis lutas da vida cristã é aprender esta sentença: "Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória" (Salmos 115.1). Esta é uma lição que Deus está sempre nos ensinando e, às vezes, por meio da mais dura disciplina. Se o crente começa a gloriar-se: "Posso todas as coisas", sem acrescentar: "Naquele que me fortalece" (Filipenses 4.13 ARC), logo terá de lamentar: "Eu não sou nada" e afligir-se até ao pó. Quando fazemos algo para o Senhor, e Ele se agrada em aceitar nossas realizações, devemos lançar nossa coroa aos pés dEle e confessar: "Não eu, mas a graça de Deus comigo" (1 Coríntios 15.10)!

FONTE: [ Charles Haddon Spurgeon ]

Créditos: http://bereianos.blogspot.com/

ONDE ESTÁ DEUS QUANDO AS COISAS VÃO MAL?

O texto abaixo, que eu achei belíssimo e que trata da existência do sofrimento e da justiça de Deus, foi citado no livro "Onde está Deus quando as coisas vão mal?", escrito por John Blanchard e publicado pela Editora Fiel.
O autor deste texto não é identificado pelo autor, que menciona apenas que ele foi publicado em 1960. (A propósito, recomendo a leitura desse livreto, que tem apenas 40 páginas).


No final dos tempos, bilhões de pessoas se apresentaram diante do trono de Deus. Muitas retrocederam ante a luz que resplandecia diante delas. Mas alguns grupos que estavam na frente conversavam veementemente, não com temor servil, e sim com agressividade: "Deus pode nos julgar?"

"Como Ele pode saber algo a respeito de sofrimento?", questionou uma moça ousada. Ela puxou com rapidez a manga de sua veste para mostrar o número tatuado de um campo de concentração nazista. "Suportamos terror... espancamento... tortura... morte!"

Em outro grupo, um homem curvou o seu pescoço, dizendo: "O que vocês acham disto?", ele perguntou, mostrando uma horrível marca de corda. "Linchado por ser negro e não por cometer algum crime!"

Em outra multidão, uma estudante grávida, com olhos taciturnos, murmurou: "Por que eu tive de sofrer? Não foi minha culpa".

Espalhados ante o trono, havia milhares de grupos como esses. Cada pessoa tinha uma queixa contra Deus, por causa do mal e sofrimento que Ele havia permitido neste mundo. Quão feliz estava Deus em viver no céu, onde tudo era doçura e luz, onde não havia lágrima, nem medo, nem fome, nem ódio! O que Deus sabia a respeito de tudo que os homens tinham sido obrigados a suportar neste mundo? "Deus leva uma vida muito tranqüila", eles diziam.

Cada grupo apresentou o seu líder, escolhido por haver sofrido mais do que os outros do grupo. Um judeu, um negro, alguém de Hiroshima, uma pessoa que fora horrivelmente afligida por artrite e uma criança teratogênica. No centro da aglomeração, eles conversaram entre si.

Por fim, estavam prontos para apresentar o seu caso e o fizeram com muita perspicácia. Antes de se qualificar para ser o juiz deles, Deus tinha de suportar o que eles haviam suportado. Haviam chegado ao veredicto de que Deus fosse condenado a viver na terra - como homem! Deveria nascer como judeu; a legitimidade de seu nascimento teria de ser questionada. Ele deveria realizar uma obra tão difícil, que sua família pensaria estar louco, quando tentasse realizar essa obra. Ele deveria ser traído por seus amigos íntimos; enfrentar falsas acusações, ser julgado por um júri preconceituoso e condenado por um juiz medroso. Deveria ser torturado e, por fim, entender o que significa ser terrivelmente abandonado e deixado solitário. Depois, Ele deveria morrer em agonia, de tal modo que não haveria dúvidas quanto à sua morte. E grande número de testemunhas deveriam comprová-la.

Enquanto cada líder anunciava a parte de sua sentença, um intenso murmúrio de aprovação saía dos lábios das pessoas ali reunidas. Quando o último líder terminou de proferir a sentença, houve um silêncio prolongado. Ninguém proferiu nenhuma palavra. Ninguém se mexeu, pois todos sabiam que Deus já havia cumprido a sua sentença.


Créditos: http://www.pulpitocristao.com/

sábado, 12 de junho de 2010

PONTOS DISCUTÍVEIS NO MOVIMENTO NEOPENTECOSTAL



por Wemerson Marinho

O movimento neopentecostal cresce muito atualmente. No entanto, esse crescimento não nos impede de questioná-lo, pois, afinal, nós somos vítimas do pragmatismo carismático, que pensa que, se algo deu certo, só pode ser bom e verdadeiro. A nossa base de julgamento é a Palavra, nossa regra de fé e prática. Sem a pretensão de fazer uma abordagem técnica sobre o assunto, discorreremos sobre alguns pontos discutíveis desse movimento, analisando-o sob três perspectivas: a eclesiológica, a teológica e a prática.

Salientamos que estaremos abordando o tema neopentecostalismo2 e não sobre o movimento pentecostal3 . Sobretudo, não é nossa intenção atacá-lo como movimento em si, mas apenas refletir sobre os pontos listados acima.

Pontos discutíveis da Eclesiologia Neopentecostal

Nossa abordagem irá explorar apenas três itens: o culto, a evangelização e o ofício ministerial.

a) O culto neopentecostal

Temos entendido que o propósito exclusivo de um culto é a adoração a Deus e a edificação da alma adoradora. Contudo, não se pode dizer que a igreja neopentecostal tem seguido este propósito, isto porque a ênfase dos seus cultos, geralmente, não é a glória de Deus. Na "igreja neopentecostal", o conceito de culto é ambíguo, pois, ao invés de se cultuar, fazem-se "campanhas" de cura, revelação, prosperidade, etc.

Desta forma, se Deus comparecer nestes "cultos", terá que ser para servir a agenda semanal das tais igrejas e não para ser adorado. A liturgia deles é cheia de "glória a Deus", mas é tão desvirtuada de um padrão bíblico que a ênfase recai sobre fenômenos (pouco comprovados) como curas, milagres e testemunhos, muitos dos quais enfadonhos e que resultam mais em projeção pessoal do que em exaltação ao Senhor.

As pregações, quando não são pura aberração, são cheias de confissões positivas do tipo: "Você vai prosperar, use sua fé e prospere, hoje Jesus vai te curar, Deus vai mudar sua vida..." Não existe, portanto, na maioria destas igrejas, uma exposição das Escrituras sequer razoável, capaz de tirar o leigo da ignorância teológica total. Por este fato, quase sempre a palavra do líder tem um valor relativo ao da Palavra de Deus e o que ele determina passa a ser seguido como regra de fé e prática.

Esta valorização da "tradição oral" não difere muito da atitude de uma igreja que se chama primitiva, cujo chefe supremo é considerado infalível no que fala e somente agora, por pressão evangélica, é tolerante com a leitura bíblica.

Outro problema é o que o culto neopentecostal, que não tem espaço para a adoração, corrompe-se mais ainda com a demasiada cobrança de oferta dos fiéis (quase sempre prometendo a estes soluções da parte de Deus) o que tem dado a estes "cultos" um caráter mercantilista e explorador. Não somos contrários a se pedirem ofertas, diga-se de passagem, mas não concordamos com a falta de bom senso e critério bíblico na administração destas coisas no culto a Deus.

b) A Evangelização Neopentecostal

A evangelização do movimento neopentecostal apresenta um problema seriíssimo, que é o proselitismo5, característica inconfundível das seitas. Muitos deles são do tipo que "pescam no aquário dos outros" por alimentarem a crença de que são os detentores da verdade, enquanto os demais estão enganados. A igreja verdadeira não faz prosélitos, faz discípulos.

A busca do crescimento numérico por meio do proselitismo é no mínimo insensata, pois podemos até persuadir alguém a ser um religioso, mas só Deus pode transformá-lo em nova criatura. (Às vezes penso que as campanhas evangelísticas de nossos dias têm mais aparência proselitista do que evangelística, afinal, a maioria delas é realizada para crentes.)

Outro problema relacionado à evangelização do movimento neopentecostal é a exagerada dependência da mídia. O uso da mídia é, sem dúvida, muito importante para a igreja, mas a dependência da mesma significa a insubordinação ao Espírito. Antigamente a igreja crescia sob a influência do Espírito e trabalho de evangelização pessoal; hoje, a estratégia de algumas igrejas tem sido a de colocar um anúncio apelativo no rádio ou televisão, convidando as pessoas e prometendo-lhes a solução de seus problemas. E eu pergunto: qual igreja que promete cura, paz, prosperidade e solução de conflitos familiares, que não vai crescer? No entanto, praticando isto a igreja deixa de ser igreja do IDE e passa a ser igreja do VINDE, a evangelização passa a ser estratégia de marketing e os que se "convertem" para a igreja, passam a ser clientes e não ovelhas.

Ademais, o evangelismo neopentecostal carece de um conteúdo teológico, que é essencial para a elucidação de verdades elementares da fé cristã. Suas estratégias são pregar promessas de uma realidade virtual e não pregar um evangelho de genuíno, o evangelho de Jesus.

c) O Ofício Ministerial Neopentecostal

Enquanto nas igrejas históricas os candidatos ao ministério pastoral passam por uma preparação e zelosa avaliação quanto ao caráter e chamado, no movimento neopentecostal qualquer um pode ser "pastor". Os critérios baseiam-se em saber pregar, falar línguas estranhas, ter sido revelado, etc e, por esta razão, muitos líderes neopentecostais são tão desvirtuados dos caracteres de um verdadeiro homem chamado ao ministério.

Poucos são aqueles que tem alguma preparação teológica. Segundo Paulo, as características de um homem apto para o ministério devem estar relacionadas ao seu caráter irrepreensível, com sua capacidade de ensinar, com sua boa administração do lar, com sua competência nos relacionamentos, com sua boa conduta para com o mundo, etc (1 Tm 3).

Além de tudo, cada pastor neopentecostal é livre pensador, ou seja, pode pregar o que acredita, sem a supervisão de ninguém, o que favorece ao surgimento de tendências heréticas e inovações doutrinárias no meio deles. E quando são questionados por alguma autoridade, se revoltam e abrem suas próprias igrejas dirigindo-as como bem lhes apetece.

Tendo falado sobre a questão eclesiológica da igreja neopentecostal, apresentaremos agora alguns pontos teológicos questionáveis que eles sustentam.


Pontos Discutíveis da Teologia Neopentecostal

O Rev. Roberto Laranjo, em seu artigo O Neopentecostalismo e suas implicações, publicado pela revista Rhêmata6 , destaca três tópicos teológicos que o neopentecostalismo interpreta de forma questionável. Tomaremos sua sugestão de tópicos para refletirmos sobre a teologia neopentecostal:

a) A Exclusividade das Escrituras

Os neopentecostais afirmam que a Bíblia é a Palavra de Deus e, com isto, nós concordamos. Mas para eles a palavra dos "profetas", dos visionários também é a Palavra de Deus. E por isto baseiam suas vidas e suas doutrinas também em visões, "novas revelações" e em experiências místicas.

A Bíblia é a revelação perfeita e final de Deus para o homem; visões e profecias, foram acessórios usados neste processo de formação da Sagrada Escritura. Hoje porém, temos a fé de que a Palavra de Deus é viva, eficaz e suficiente (HB4.12) sendo esta a nossa única regra de fé e prática. E uma vez que o cânon7 do Novo Testamento foi concluído, devemos nos apoiar apenas na Palavra e em nada mais.

Não ignoramos a iluminação do Espírito propiciada para que entendamos mais profundamente a Palavra, mas negamos que sejam necessárias "novas revelações". Em Jo 16.13 o Senhor Jesus diz que o Espírito nos guiaria em toda a verdade e não que nos revelaria "novas verdades".

b) A Trindade

A maioria deles defende a doutrina da Trindade, como nós também; porém a pessoa mais enfatizada no culto neopentecostal é o Espírito Santo. Praticamente tudo no culto é atribuído ao Espírito, cura, expulsão de demônios, decisões, etc. Com isso, o papel das outras pessoas da Trindade é ignorado. Parece que eles consideram o Espírito superior aos demais membros da divindade, ou pelo menos, mais importante.

No entanto, a Bíblia diz que o Filho glorifica o Pai e, o Espírito, glorifica o Filho, que por sua vez, derrama o Espírito que faz o homem orar ao Pai em nome de Jesus (Jo 13. 32; 14.13; 16.14). A verdade é que, embora a Divindade seja composta de três Pessoas distintas, elas formam uma unidade essencial perfeita. De forma que é impossível um existir e agir sem a participação de todo o conselho divino .

c) A Superficialidade Espiritual

Devido à ênfase na liturgia envolvente, nas curas e nos exorcismos, os neopentecostais são, na sua maioria, superficiais na fé e no conhecimento das Escrituras. Este superficialismo os faz presa fácil de perniciosas heresias e de lobos vestidos de cordeiro. Por isto também é que as comunidades neopentecostais são tão suscetíveis ao empirismo8 , misticismo9 , materialismo e muitas outras tendências tão nocivas à fé cristã.

O resultado desta superficialidade é a imaturidade manifesta numa vida carnal não experimentada no fruto do Espírito Santo. Não estamos dizendo que todos os neopentecostais são leigos, por que não são. Contudo, a hermenêutica deles é profundamente comprometida com "novas revelações" o que os faz suscetíveis a tendenciosidade.

d) Quanto à Salvação

O pensamento deles sobre salvação não se limita a considerá-la apenas obra do Espírito, mas a ensinam como produto da cooperação humana, A salvação torna-se, portanto, tão inflacionável como nossa economia: hoje tenho, mas amanhã posso ter perdido.

Contudo, a Bíblia ensina com muita segurança que a salvação é pela graça e não por méritos previstos ou praticados pelo homem, 2 Tm 1.9, e que a salvação é eterna, Hb 5.9. O conceito arminiano10 tem larga expressão e até sofre uma radicalização dentro do neopentecostalismo.

Como conseqüência, alguns se revestem de um humanismo tão grande, à semelhança de Erasmo de Roterdam11 , que chegam a pregar que Deus depende carentemente da vontade humana para realizar seus desígnos e, que se o homem não quiser, Deus não pode fazer nada senão esperar até o dia que tal pessoa resolver dar uma chance para Ele.

Este, sinceramente, não é o meu Deus, nem o revelado na Bíblia e na história como soberano, criador e mantenedor de todas as coisas. Estas exaltações do "livre arbítrio humanas" são contrárias à Soberania de Deus. Se falarmos de liberdade de escolher no homem, não nos esqueçamos da liberdade de escolher de Deus. E não é injusto Deus fazer o que lhe aprouve, assim como não é injusto você queimar seu carro se o desejar fazer.

Pontos Discutíveis da Prática Neopentecostal

Este tópico pode parecer um pouco estranho, tendo em vista que já abordamos a prática eclesiológica e teológica neopentecostal. Eu poderia dar outro título, pois não me faltariam opções, contudo, eu quero abordar aqui a conclusão prática dos dois tópicos acima. Ou seja, o resultado de uma eclesiologia e teologia distorcida é uma praxe confusa e antibíblica. Vejamos, pois, algumas praxes neopentecostais cuja natureza são incoerentes com o ensino bíblico.

a) A Prática Mística Neopentecostal

Misticismo é o conjunto de normas e práticas que tem por objetivo alcançar uma comunhão direta com Deus. O problema é que quase sempre, os místicos são induzidos a prescindir da Bíblia e a se basear apenas em suas experiências. Este é um dos grandes problemas dos neopentecostais, pois eles colocam suas experiências acima da Bíblia e dão a ela uma interpretação particular fora dos recursos hermenêuticos.

O Misticismo neopentecostal é a mistura de figuras, objetos e símbolos para representarem coisas espirituais. Eles tomam figuras do Antigo e Novo Testamento e as espiritualizam, transformando-as em "proteções" semelhantes às usadas pelas magias pagãs. Deste ato, aparecem crentes com fitinhas no braço, com medalhas de símbolos bíblicos, ungindo portas e janelas com azeite, colocando sal ao redor da casa para impedir a entrada de maus espíritos; outros bebem copos de água abençoada, usam óleos consagrados em Jerusalém, guardam gravetos que misteriosamente aparecem brilhando nos montes, ungem roupas para libertar as pessoas e etc.

Estas coisas se estabelecem como pontos de contato e não passam de artifícios que roubam o lugar da fé e da eficácia da obra de Cristo. Esta prática é rejeitada tantos pelos Pentecostais como pelas Igrejas Históricas, visto ser uma fruto de uma doutrina pagã que visa estabelecer por meio de objetos um ponto de contato entre Deus e o homem. As magias pagãs estabelecem como pontos de contatos objetos como amuletos, talismãs, patuás, cristais, pedras e coisas para "proteção".

Basicamente, a cosmologia neopentecostal brasileira é sincretizada pelo cristianismo europeu, pelo animismo12 dos índios e pelo fetichismo13 dos africanos.

O animismo prega que existe uma alma ou poder, a permear cada objeto. E o fetichismo manifesta-se na cultuação, veneração ou uso religioso de um objeto que representa uma pessoa, coisa, divindade ou ritual. Estas práticas pagãs não possuem uma relação muito intima com os pontos de contato14 ?

Tais ensinos anulam a obra de Cristo, criando um novo meio de justificação ou arranjando um amuleto de fé para as pessoas se apoiarem. O problema é que tais pessoas acabam baseando sua fé em objetos assim como fez Gideão (Jz 8.27). A questão não é se Jesus ou os apóstolos usou algumas vezes objetos em suas ministrações, mas no que isto pode implicar. O ponto de contato dos verdadeiros cristãos é a fé em Jesus, pois Ele é o único mediador entre Deus e o homem.

b) A Prática Legalista e Liberal do Neopentecostalismo

Em matéria de ética, os neopentecostais em geral se comportam de forma legalista15 ou "liberal", sendo poucos deles equilibrados. Os legalistas enfatizam, sobretudo, a observância dos usos e costumes como um processo de santificação e preparação para a salvação. Desenvolvem um "evangelho ascético"17, que opta pela "mortificação da carne", isolamento social e confinamento espiritual como um tipo de disciplina pessoal. Os "liberais" já não se importam com mudança de vida; preocupam-se apenas com prosperidade, saúde e felicidade neste mundo. Estes últimos vivem uma espécie de "evangelho hedonista16 " que enfatiza apenas o prazer como o fim último da vida.

Somente um entendimento correto acerca da doutrina da graça de Deus, poderia conduzir estas pessoas a uma coerência bíblica e, conseqüentemente, a uma prática religiosa sadia.

Enfim, existem ainda muitos pontos discutíveis do neopentecostalismo que aqui não apresentamos, no entanto, esta abordagem dará a você uma visão geral do movimento. É bom lembrar que nossa exposição não é contra os crentes, mas contra o sistema neopentecostal.

NOTAS:
1 - Filosofia que prega que a verdade é medida pelos efeitos que produz, basicamente, se deu certo é verdade, se não, não é verdade.
2 - Movimento surgido em meados XX que enfatizava o batismo com o Espírito Santo e os dons espirituais, dinamizando o método litúrgico e incluindo em sua teologia, doutrinas rejeitadas pela fé apostólica e ortodoxa.
3 - Movimento evangélico surgido no Estados Unidos no início do século XX que enfatizava o batismo com Espírito Santo como uma bênção subseqüente à conversão e a contemporaneidade dos dons espirituais .
4 - Matéria da teologia sistemática que estuda a respeito da igreja.
5 - Pessoa que abraça uma religião ou uma doutrina. Fazer proselitismo é tentar converter alguém a uma religião.
6 - Revista de escola dominical publicada pela Igreja Presbiteriana semestralmente em Ipatinga.
7 - Conjunto de livros que compõem o Novo e Velho Testamento que foram reconhecidos pela igreja cristã como inspirados por Deus.
8 - Doutrina que prega que todo o conhecimento adquirido pelo homem passa necessariamente pelos sentidos.
9 - Conjunto de normas e práticas quem tem por objetivo alcançar uma comunhão direta com Deus. O problema que os místicos sempre exaltam a experiência em detrimento a Palavra.
10 - É uma doutrina elaborada como uma enérgica reação à teologia de Calvinista. [Para conhecer melhor este tema, leia o texto: Os Cinco Pontos do Calvinismo.]
11 - Teólogo humanista que se opôs a Lutero na questão da livre arbitro.
12 - Crença de que existe uma alma a permear cada objeto. Para o animista todo o objeto tem alma ou poder e, basicamente, esta é uma crença dos índios.
13 - Fetiche é um objeto de culto forte que possui associação simbólica com o ritual, divindade, pessoa ou coisa que representa.
14 - São objetos usados como meios de se transmitir uma bênção, ou uma cura, etc.
15 - Aquele que pratica o legalismo, sistema que enfatiza as obras como coadjuvantes na salvação.
16 - Esta expressão denota as pregações modernas que centram-se no oferecimento de prazer, prosperidade e saúde.
17 - Esta expressão faz referência a um tipo de pregação que enfatiza o legalismo.

Wemerson Marinho é membro da Igreja Presbiteriana do Cariru Ipatinga, Bacharelando em Teologia e diretor da Revista de Estudos Renascer.

Créditos: www.monergismo.com